em boa verdade

os trinta são praticamente tudo aquilo que me prometeram, obrigada.

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apanhar cacos

acho que foi esta, sim, apanhar cacos, a principal razão pela qual decidi estudar cinema. foi quando, a determinada altura, senti a urgência de descrever aquelas dores que se sentem e que não se exteriorizam da forma mais correcta, que desenvolvi a minha primeira ideia audiovisual. esta mesma ideia, apesar de recente, levou-me a uma paixão antiga: escrever. e essa mesma paixão, conjugada no modo certo, levou-me a assumir que o que mais queria na vida era contar histórias. foi a primeira vez que, além das palavras, as minhas histórias começaram a ter imagens específicas que, em loop, me perseguiam e quase me pediam um sítio qualquer para se materializarem.

pois bem, indo directamente ao que interessa, o que é isto de apanhar cacos? quando alguém nos desilude, nos deixa e nos parte o coração há um sentimento que faz da metáfora realidade. é, nesta alturas, de coração partido, que nos arrastamos pela rua, mas continuamos a sorrir. é, nesta altura, que continuamos a sorrir e a dizer que está tudo bem – isto porque seria demasiado ridículo assumir que não está – enquanto, sem que ninguém perceba, nos baixamos, apanhamos os cacos que andamos a semear pela cidade e os guardamos no bolso. é uma fórmula matemática: não estamos bem, mas dizemos que sim e, de castigo, há que vergar o corpo e arranhar as mãos com bocados caídos do lado esquerdo do peito – e, às vezes, não são bocados.

é uma grandessíssima merda, desculpem-me o francês, mas é mesmo. não há como lidar com a rejeição, com a negação da pessoa incrível que somos e que merece o amor maior do mundo. é uma chatice ter de aceitar que, até encontrarmos um que se transforme em príncipe, vamos passar a vida a beijar sapos. a marcar copos e jantares, a dar-nos a conhecer e a conhecermos terceiros, envolver-nos e, sem que o esperássemos, ou simplesmente não o quiséssemos aceitar, há um ser deste universo (mais um, aliás) que não nos quer. MAS PORQUE RAIO ALGUÉM NÃO HAVIA DE QUERER ALGUÉM COMO NÓS? É uma resposta, para bem da nossa sanidade mental, que tem variações. Sim, sempre com uma dose de honestidade há que dizer as verdades que doem e depois, com a mesma dose disso, há que dizer as mentiras que fazem doer menos. Não lhes chamaria sequer mentiras, chamar-lhe-ia carinho que se demonstra por alguém de quem gostamos muito e está sentir algo monstruoso que nós já sentimos e sabemos bem como é. em boa verdade, quer dizer, às vezes é um pequeno monstro, mas que pode assumir dimensões desproporcionais ao valor que tinha.

mas é isso, hoje acordei e, em tom de desabafo, disse: a vida das mulheres é apanhar cacos, quando não são os nossos são os dos nossos mais-queridos e das nossas mais-queirdas. e, isto, quando se roda frangos há tanto tempo, torna-se, realmente, triste.

quase

gostava de me lembrar, daqui a uns meses, porque é que postei esta música por esta altura.

post recuperado com quase dez anos

grita como um desalmado. chora, corre, salta, não pares de correr e grita, grita para que todos te oiçam, sem nunca parar de chorar. luta, sobrevive, espairece e desaparece, mas no fim volta. volta e descansa. adormece aqui, no silêncio das palavras que nunca te disse…

single

quando se chega aos trinta e um anos e se é solteira tem-se o direito de se falar sobre estas coisas com autoridade. há sempre palavras de orgulho e de congratulação para aquelas que são mães, para aquelas que, tendo mais ou menos a mesma idade, tiveram um casamento ou uma união de facto e, eventualmente, alargaram a família. aquelas que, depois de serem mães, acham que todas as outras são um bocadinho menos que elas. aquelas que têm, agora, por fim, um amor tão maior que todos os outros e sentem que a vida delas encontrou finalmente um sentido.

conheço uma mão cheia de mulheres solteiras, incluindo eu própria, que seriam óptimas esposas ou namoradas ou companheiras e que, assim como as outras que lá chegaram, aspiram a maternidade nas suas vidas. são mulheres bonitas, com garra e com ambição que têm sonhos e que, realmente, os tentam realizar. são mulheres inteligentes e interessantes que têm vida social e bons amigos. não conheço, neste grupo de mulheres às quais me refiro, nenhum defeito impeditivo de ter tudo o que outras mulheres conseguiram como um suposto casamento – e consequente divórcio, claro – e um filho. estas mulheres, que não são super-mães são super-uma-data-de-outras-coisas. e, aqui falo com conhecimento de causa, são mulheres que ainda assim não desistiram de ser felizes. são mulheres que conhecem homens, que saem com homens e que, perdoem-me o tradicionalismo, continuam à procura do príncipe encantado. são mulheres que, mais que as outras que encontraram um amor-maior-que-o-mundo-para-toda-a-vida, continuam a dar chances, a beijar sapos e a estender-se ao comprido tantas e tantas vezes. será isso menos válido que ser mãe? não pretendo fazer comparações directas e sou daquelas que aspira a maternidade, não lhe nego a magia que, porém, desconheço. mas, caramba!, há mulheres que não dão de mamar, mas quase que continuam a trocar a fralda a homens feitos. há mulheres que não acordam de duas em duas horas de noite mas continuam a ter insónias; coleccionam dores pequenas que moem, uma certa descrença que alterna com uma vontade enorme de acreditar e corações partidos. há mulheres que não têm abraços de mãos pequenas e sorrisos inocentes que ainda dependem delas, mas há outras mulheres que continuam a lidar com a escumalha que vive fora das quatro paredes do lar de algumas, só algumas, famílias.

mas essas mulheres, de perfil qualificado, não têm filhos, nem namorados, nem companheiros. são solteiras. ser-se solteira não é um crime é, antes de mais, uma luta que algumas mulheres continuam a ter. sem esforço, claro. não se fala aqui de mulheres que caçam maridos ou estariam já todas de aliança no dedo. falamos de mulheres que continuam a ter uma vida para viver, um trabalho para onde ir, amigos com quem estar, mas continuam a dar tiros no escuro só para não perder a prática. essas mulheres são tão mulheres como todas as outras que conheço com uma vida a dois e rebentos para criar.

sabemos bem

e não é de hoje: há coisas que não se resolvem antecipadamente. que ficarão suspensas até ao desfecho possível. nem sempre sabemos renunciar atempadamente àquilo que não nos satisfaz. mas uma coisa é certa, por mais irónica que possa soar: sabemos identificar a insatisfação mais cedo e sabemos que a devíamos renunciar, mas quase sempre escolhemos não o fazer. sabemos que caímos, quase sempre, da mesma maneira, mas levantamo-nos um bocado mais depressa que das últimas vezes. a sabedoria não nos vale de muito, é verdade, mas o calo para aguentar as quedas melhora com o tempo.